O Trump “Fausto” e o Netanyahu “Mefistófeles”: não é alucinação, é desejo demoníaco

Este Fausto que não é de Goethe busca prazer sem limites para acumular ouro.

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Na penumbra dourada de um salão em Mar-a-Lago, decorado com mais ouro do que o bom gosto permitiria, o Fausto, com o falso topete alaranjado, suspirava diante de um mapa da costa de Gaza.
“É a melhor vista do Mediterrâneo”, resmungava ele, “um desperdício de areia em mãos de quem não sabe o que é um lobby de mármore”.
De um rastro de fumaça de charuto e pragmatismo frio, surgiu Mefistófeles, ostentando um terno impecável e o olhar de quem já leu todas as letras miúdas da história.
— Meu caro Fausto — sussurrou Mefisto, conforme a ilustração —, com um sorriso gélido, por que se contentar com o desejo, se posso lhe dar as chaves do paraíso imobiliário? Imagine: o ‘Trump Gaza Sands’. Suítes presidenciais onde antes havia escombros. Piscinas de borda infinita que ignoram os gritos do outro lado do muro.
Fausto hesitou por um milésimo de segundo, olhando para o espelho onde se enxergava no meio de poeira, fome e corpos sob as pedras.
— Mas e os… você sabe, os locais? — perguntou Fausto, ajustando a imagem de sua fotografia. — A imprensa, as mulheres, as crianças… as casas deles estão no caminho dos meus campos de golfe.
Mefisto soltou uma risada que soou como o bater de portas de um bunker.
— Detalhes, meu caro. Para construir o novo, o velho precisa ser moído. Cada fundação de concreto do seu resort será batizada com o silêncio deles. O que é um processo de limpeza perto do brilho de cinco estrelas? Eu cuidarei do trabalho sujo — sou vizinho de Gaza. Minhas máquinas não param, meus fogos não cansam, pois são financiados com dinheiro ianque. Eu transformo bairros em pó para que você transforme pó em ouro.
Os olhos de Fausto brilharam com a sua luxúria de um bilionário diante de um contrato de exclusividade. Ele imaginou os iates atracando onde antes barcos de pesca imploravam por saída. Viu milionários brindando com champanhe sobre as cinzas de árvores genealógicas inteiras.
— Eles vão amar — exclamou Fausto, já pegando a grande caneta preta e dourada. — Será o maior negócio da história. O mais bonito. Um genocídio… quer dizer, um “rebranding” necessário.
Mefisto estendeu o contrato, cuja tinta parecia estranhamente quente e vermelha de sangue derramado.
— Assine aqui, Fausto. Eu lhe dou a terra limpa de gente e cheia de lucro. Você me dá o que resta da sua reputação em proteção na justiça dos homens. No final, o resort será eterno, mesmo que as almas que ali viviam tenham se tornado fumaça sob o seu sol.
E assim, entre um aperto de mãos e o som de uma explosão distante, o pacto foi selado. O resort teria vista para o mar; o inferno, novos hóspedes; e o mundo assistiria, em alta definição, Fausto vender o amanhã em troca de um check-in de luxo.

Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo

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