O protesto silencioso é perigo real de assinar uma procuração para a ignorância decidir o nosso futuro.

O voto em branco ou nulo não anula uma eleição ruim; ele apenas válida a escolha de quem votou pior do que você.
Olhar para o cenário político atual dá um nó no estômago. A sensação de repulsa é quase unânime: abrimos o jornal ou ligamos a televisão e o que vemos é um desfile de vaidades, promessas vazias e figuras caricatas que parecem zombar da nossa inteligência.
Diante disso, a reação mais natural e humana é o nojo. Dá vontade de chutar o balde, dar as costas no dia da eleição, anular, votar em branco e dizer: “Eu não me misturo com essa sujeira”. É um sentimento legítimo de revolta. Mas, afinal de contas, quando todas as opções parecem uma porcaria, o que nos resta fazer?
A resposta é dura, incômoda, mas inevitável: temos que engolir o orgulho e escolher a opção menos destrutiva, porque a omissão cobra um preço caro demais.
Essa angústia não é nova. Há mais de dois mil anos, Platão já olhava para a democracia grega com uma profunda desconfiança. Ele alertava que governar deveria ser uma arte de sábios, e que o grande perigo do voto sem critério era abrir as portas para a demagogia — aqueles líderes carismáticos que manipulam as paixões do povo com discursos fáceis, mas que por dentro são completamente vazios. Logo depois, seu discípulo Aristóteles trouxe uma visão complementar: nós somos, por natureza, animais políticos. Isolar-se da comunidade e das decisões do Estado não nos torna superiores; torna-nos menos humanos, pois abdicar da pólis é abdicar do controle sobre a nossa própria existência coletiva.
Séculos mais tarde, quando os pensadores do Contrato Social tentaram entender como o poder legítimo nasce, o aviso ficou ainda mais sério. John Locke explicou que nós transferimos nossa força para o governante sob uma condição clara: que ele proteja nossas vidas, nossa liberdade e nossos bens. Se falharmos em escolher bem quem cuida desse contrato, quebramos a nossa própria segurança. Jean-Jacques Rousseau foi ainda mais cirúrgico ao dizer que a soberania pertence ao povo, mas disparou uma verdade dolorosa: o cidadão só é livre no exato momento em que deposita o voto na urna; logo depois, se ele se afastar da fiscalização e da participação, ele volta a ser escravo.
Nessa mesma linha de realismo cru, Abraham Lincoln dizia que o voto é mais forte que a bala, porque constrói ou destrói nações sem disparar um tiro. E Winston Churchill arrematou com seu pragmatismo britânico, lembrando que a democracia é, de fato, a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que já foram testadas. Ninguém está dizendo que o sistema é perfeito ou que os candidatos são santos. A política real nunca foi sobre escolher o anjo salvador; sempre foi sobre gerenciar os interesses humanos e evitar a barbárie.
É aqui que cai por terra o grande mito do protesto silencioso. Achar que anular o voto ou votar em branco é uma demonstração de pureza moral é uma ilusão infantil. A matemática das urnas brasileiras é fria, cínica e não tem sentimentos. O sistema simplesmente ignora os votos brancos e nulos. Eles são jogados no lixo da apuração. Eles não cancelam eleição, não reduzem o mandato de ninguém e não servem de puxão de orelha para partido nenhum. Na verdade, eles fazem o oposto: diminuem o total de votos válidos necessários para que o pior dos candidatos vença.
Quando você lava as mãos e se recusa a digitar um número na urna, você não está punindo a classe política. Eles não se importam com o seu silêncio; eles se importam com o poder. Ao se calar, você está assinando uma procuração invisível, com firma reconhecida, dando plenos poderes para que a parcela mais desinformada, fanática ou manipulável da sociedade escolha quem vai comandar a sua vida. Você está deixando que o voto de cabresto alheio decida o imposto que você paga, o preço da comida no supermercado, a qualidade do hospital onde seus filhos vão nascer e a segurança da rua onde você caminha à noite.
A omissão é uma transferência voluntária de poder. O governo eleito vai criar leis que vão afetar você, quer você tenha votado ou não. A crise econômica vai bater na sua porta, a inflação vai corroer o seu salário e a incompetência administrativa vai atrasar o seu país do mesmo jeito. A única diferença é que, ao se omitir, você perde até o direito legítimo de reclamar. Você se desarma diante da incompetência.
Não dá para esperar o candidato perfeito em um mundo imperfeito. Votar, muitas vezes, é um exercício de redução de danos. É olhar para o tabuleiro e escolher aquele que causará o menor estrago, aquele que respeita minimamente as regras do jogo, a estabilidade e o bem-estar social. Não morda a isca do desespero que paralisa. Pesquise, tenha estômago, encare a realidade de frente e posicione-se. Quem se recusa a escolher o próprio rumo está condenado a ser arrastado pelas escolhas dos outros.
Quem não vota desiste do direito de reclamar
Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo


