Quase uma parodia dos “Irmão de Dacobé”: Damastor, Doricão, Dismundo e Derval , uma obra de Guimarães Rosa

A poeira vermelha do asfalto fluminense subia como fumaça de pólvora sobre o arraial das milícias. No centro do salão, repousava o corpo de Flávio, o primogênito dos quatro irmãos conhecidos pela vida errante, das armas veneradas pelo pai junto com as mentiras. Ele, que outrora coordenava as engrenagens ocultas e os recolhimentos clandestinos (rachadinhas), jazia sem vida. O autor do feito fora Marcinho VP ( chefe do CV), o temido chefe da facção do Complexo do Alemão, que agira no calor do fogo cruzado daquele sertão urbano, após ter fugido da prisão de “segurança Máxima”.
A atmosfera no velório era sufocante. Milhões de almas humildes e empobrecidas assistiam ao luto de longe, enganadas pela promessa de um falso paraíso, acreditando defender uma ordem que, na verdade, as oprimia. Todos aguardavam o estourar da boiada. A lei do cão exigia sangue por sangue. Os três irmãos restantes — moldados no mesmo ferro do crime, portando mandatos e insígnias como escudos políticos — vigiavam o caixão com olhos de rapina.
De repente, o silêncio se fez aço. Marcinho VP cruzou o umbral da capela. Não trazia armas ostensivas, mas a coragem fria dos que conhecem o destino. A multidão recuou, antecipando a chacina.
Foi quando o inesperado se desenhou, tal qual nos arranjos mais sinuosos do poder. Em vez do clamor das balas, operou-se o milagre do cinismo. Inspirados pelo exemplo de um ex-juiz e ex-ministro da nação, defenestrado pela famiglia — e que outrora jurara justiça na condução de uma Vara Criminal, mas abandonara qualquer pressuposto de vingança ou moralidade para se banquetear com os votos e garantir mais um mandato, agora como governador—, os três irmãos remanescentes viram no perdão uma moeda mais valiosa.
Eduardo, Carlos e Renan, ladeados pelo patriarca da família – que foi liberado da prisão, condenado por 27 anos, para enterrar o filho – , entreolharam-se. Compreenderam que a morte de Flávio limpava o terreno para novas alianças de conveniências com o centrão e pastores “religiosos só pra boi dormir”. Marcinho VP deu um passo à frente e estendeu as mãos ao verniz da urna funerária, ao mesmo tempo que parte da polícia comprada pela gang dava cobertura para que os bons policiais não descobrissem o fugitivo da prisão de Campo Grande. Os três irmãos, num pacto silencioso de sobrevivência e conveniência política, dividiram com o assassino do irmão o peso da madeira e do corpo de Flavio dentro do caixão.
Juntos, milicianos e chefes de facção carregaram o caixão pelas ruas poeirentas, sob o olhar confuso e hipnotizado da massa que os aplaudia. O perdão selava a paz das armas, mas mantinha intacto o verdadeiro negócio: a manutenção dos mandatos, o controle dos territórios e a perpétua exploração daqueles que, na miséria, ainda juravam fidelidade aos seus próprios carrascos.
Os Irmãos das Sombras: O Epílogo do Verniz
O velório ainda não havia terminado, mas as versões sobre a morte de Flávio já mudavam ao sabor do vento e das conveniências do dia. Naquela mesma manhã, as redes sociais e as tribunas do arraial foram inundadas por discursos que se atropelavam, desmentindo o que fora dito na véspera.
Primeiro, os irmãos anunciaram que Flávio caíra como um mártir da pátria, vítima de uma emboscada injustificável. No dia seguinte, diante das câmeras, a narrativa mudou: disseram que o irmão falecido, num ato de heroísmo geopolítico secreto, havia municiado o governo dos Estados Unidos com relatórios confidenciais para incluir Marcinho VP na lista oficial de terroristas internacionais. Essa teria sido a razão da sua execução, pelo agora terrorista Marquinho VP.
Porém, por trás do pano de fundo ideológico, o verdadeiro escândalo que corria à boca pequena entre a multidão humilde era o sumiço de R$.143 milhões de reais arrancados do suor do povo. Aquela fortuna, desviada dos cofres públicos sob o pretexto de financiar uma superprodução cinematográfica sobre a vida gloriosa do patriarca da família, agora precisava de um novo roteiro, consideram até mudar o nome do filme para “DARK HORSE e SEU MÁRTIR FLAVIO”.
Os diretores e assessores, operando diretamente de dentro do gabinete do produtor Frias, deputado com mandato pelo partida PL (que é o maior do Brasil e recebe mais de R$.1 bilhão dos cofres públicos) , corriam contra o tempo para atualizar a película em andamento: o longa-metragem agora culminaria na morte trágica do primogênito, transformando o desvio de dinheiro em uma suposta “homenagem póstuma ao herói que combateu o terror”.
No altar da capela, Eduardo, Carlos e Renan revezavam-se nos microfones. Seus discursos, repletos de contradições diárias, eram aplaudidos com fervor pela massa empobrecida que assistia ao espetáculo, crentes de que defendiam os ideais do livre mercado e da extrema-direita.
— Nosso irmão Flávio entregou a vida para expor os terroristas ao mundo! — bradou Eduardo, que veio dos EUA onde mora em mansão comprada com o dinheiro do banqueiro Vorcaro (facínora preso) e do Instituto Conhecer “o Brasil” ( que ganhou licitação fraudulenta em SP), ignorando que, minutos antes, assessores já distribuíam notas à imprensa mudando os detalhes do ocorrido para blindar as investigações dos R$143 milhões que roubaram do povo.
Quando o caixão finalmente foi erguido, com Marcinho VP dividindo o peso da alça de madeira com os antigos inimigos, a farsa atingiu o seu ápice. O perdão público foi selado sob a justificativa de uma “pacificação estratégica”, inspirada na mesma conversão do ex-juiz que abandonara o moralismo em troca do mandato de uma cadeira no senado, por outra em um palácio no governo do Paraná.
Os irmãos choravam lágrimas coreografadas para as lentes do documentário milionário, enquanto Marcinho VP mantinha o rosto rígido, consciente de seu novo papel na engrenagem. O filme continuaria, o dinheiro jamais seria devolvido, e o poder sobre o território e a mente dos inocentes permaneceria intocado.
O Grande Finale: O Triunfo do Absurdo
As redes sociais transformaram-se em um imenso e caótico tribunal de espelhos. A cada hora, uma nova hashtag subia aos tópicos mais comentados: em um momento, celebrava-se o “Flávio Herói Internacional contra o Terrorismo”; no outro, justificava-se o sumiço dos 143 milhões como “investimento cultural patriótico”. Quando as imagens de Marcinho VP carregando o caixão ao lado de Eduardo, Carlos e Rena viralizaram, o ecossistema digital entrou em curto-circuito, mas a máquina de narrativas não parou.
Nos comentários, a massa de eleitores humildes, alheia à própria exploração, operava uma ginástica mental impressionante para defender seus carrascos:
A Justificativa do Pacto:
“Eles se uniram ao VP por estratégia pura, é xadrez em quatro dimensões para derrotar o comunismo, não existe no Brasil!”
A Negação do Roubo:
“Se o dinheiro do filme sumiu, foi para financiar a segurança nacional, a grande mídia é que mente!”
O Malabarismo Ideológico:
Trabalhadores informais sem direitos defendiam o esquema com unhas e dentes, convictos de que faziam parte de uma elite capitalista global.
Enquanto as versões mudavam dia após dia, gerando piadas e revolta em uma parcela da sociedade, o algoritmo premiava o barulho. A indignação virava engajamento e as contradições eram absorvidas como “fake news da oposição”. A indignação moral do ex-juiz, agora transformado em um aliado de conveniência focado na sua própria eleição no Paraná e na colheita de votos, servia de manual de sobrevivência para o clã de marginais de traidores da pátria.
Os dias avançam célere em direção ao final do ano, quando os tambores das urnas começarão a soar. Longe de serem punidos pelo escândalo dos milhões desviados ou pela aliança explícita com o crime organizado, o cenário que se desenha nas pesquisas de opinião apontava para o triunfo absoluto do cinismo.
O grande finale não seria uma tragédia de capa e espada, mas a consagração institucional do crime. Com o filme milionário do patriarca rodando nas telas de cada smartphone do país, a comoção e o fanatismo podem pavimentar o caminho. A profecia das milícias urbanas estão prestes a se cumprir, devido a abdução de pobres e humildes ignorantes: as estimativas indicam que todos os irmãos remanescentes serão eleitos com votações recordes, inclusive com Eduardo Bananinha eleito deputado no estado do Texas EUA. Garantindo seus mandatos, imunidades e o controle absoluto sobre o território, enquanto o povo, na base da pirâmide, aplaudirão a própria servidão em nome de uma falsa liberdade.
E viva o Brasil, que ainda tem milhões de capachos desta famiglia de safados traidores e capachos dos ianques.
Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo


