O Gigante com Fome

Imperialismo em crise e suas consequências na geopolítica.

O cenário geopolítico mundial está passando por uma das transições mais profundas e dolorosas da história moderna. Ao observar as diretrizes e os desdobramentos da administração de Donald Trump nos Estados Unidos, torna-se cada vez mais evidente que o país caminha a passos largos para a perda de sua histórica hegemonia global. O que antes parecia uma liderança incontestável, hoje desmorona diante do avanço estratégico de novas potências, notoriamente a China e a Índia. Atualmente, os EUA abrigam uma população de aproximadamente 349 milhões de almas, consolidando-se como o terceiro país mais populoso do mundo. No entanto, essa imensidão demográfica hoje assiste, de mãos atadas, ao declínio de seu próprio prestígio diante das potências asiáticas que redesenham o futuro.

A perda dessa soberania americana não é um mero acidente estatístico, mas sim o reflexo de uma trágica falha moral e da exaustão de seu modelo interno. Enquanto o governo dos EUA se fecha em um egoísmo econômico e em um protecionismo frio, Pequim e Nova Délhi entenderam que o verdadeiro poder nasce do cuidado com a sua gente. O contraste mais alarmante dessa disputa não reside no poder de fogo dos arsenais bélicos, mas sim no sofrimento e na dignidade humana. China e Índia demonstraram ao mundo que o crescimento econômico só faz sentido se gerar justiça social, transformando números abstratos em comida na mesa, elevação da renda média e esperança real para centenas de milhões de famílias que saíram da miséria.

Por outro lado, a realidade social dentro das fronteiras americanas revela um cenário desolador que rasga a retórica de prosperidade e fere o coração de quem a vê. A fome e a insegurança alimentar nos Estados Unidos atingiram níveis alarmantes e cruéis, superando os piores momentos da pandemia de Covid-19. Pesquisas do Federal Reserve de Nova York revelam um dado que deveria envergonhar qualquer governante: 10% das famílias norte-americanas simplesmente não têm o que comer, enquanto 16% dependem do desespero das filas de doação para garantir o sustento diário. Olhando para a população de 349 milhões de habitantes, isso significa que impressionantes 34,9 milhões de seres humanos passam fome hoje nos EUA.

Como exemplo dessa fome crescente, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, rebateu ( ontem 17.07) duramente as declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que anunciou um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. Vieira destacou que essas ações refletem a fome de poder e de recursos que os EUA demonstram ao recorrer a medidas protecionistas, muitas vezes prejudicando países aliados e até mesmo seus próprios cidadãos. Essa postura de avidez por lucros, que se manifesta na imposição de tarifas e sanções econômicas, evidencia uma fome de domínio que não conhece limites, atingindo inclusive países europeus, com quem os EUA mantêm alianças tradicionais. Essa fome de recursos e hegemonia demonstra o quanto, na prática, o império americano também sofre de uma verdadeira fome de poder, que se traduz em estratégias de dominação econômica, muitas vezes às custas do bem-estar global e da dignidade alheia.

Enquanto a maior potência econômica do planeta falha em proteger os seus, o Brasil nos oferece uma lição emocionante de humanidade e superação. Ver a fome atingir cerca de 6,48 milhões de pessoas no Brasil — o que representa 3,2% da nossa população — não é apenas uma estatística fria; é o testemunho de um país que escolheu lutar pela dignidade de cada filho seu. Esse dado, que marca o menor patamar de insegurança alimentar grave registrado pelo IBGE em longos 20 anos, enche nosso coração de orgulho e esperança. Mostra que, mesmo diante das maiores adversidades, o povo brasileiro e o nosso solo sabem acolher, abraçar e alimentar quem mais precisa. É um abraço de dignidade que contrasta dolorosamente com o tamanho do abandono que o povo americano sofre hoje nas mãos da economia mais rica do planeta.

Essa triste deterioração da qualidade de vida está diretamente ligada aos pilares sombrios que sustentam a economia americana na atualidade. É doloroso constatar que a riqueza do país não nasce mais do suor da inovação, mas sim da especulação financeira desenfreada e do comércio sangrento de armas que espalha a guerra pelo mundo. Mais grave ainda: a manutenção desse império depende do saque sistemático e covarde de matérias-primas de nações indefesas, além do fantasma devastador do tráfico de drogas, que drena vidas, destrói famílias e financia uma engrenagem que prioriza o lucro acima da existência humana.

A verdadeira liderança mundial sempre foi o reflexo de um ideal que os outros povos desejavam seguir. No entanto, ao dar as costas ao bem-estar social de sua própria população em nome de uma ganância desenfreada, a administração Trump condena o império ao declínio e entrega as chaves do novo século ao pragmatismo humano e transformador do Oriente. Se a liderança global pertence àqueles que conseguem gerar riqueza e, simultaneamente, transformá-la em dignidade para o seu povo, a balança do poder já mudou de lado.

Escrevo estas linhas com o peito apertado, mas com a mente lúcida: não sinto prazer em ver o sofrimento de uma população abandonada por seus líderes, mas recuso-me a fechar os olhos para a hipocrisia de um império que racha por dentro enquanto tenta dar ordens ao mundo.

O gigante americano hoje padece de fome, enquanto o futuro da humanidade é escrito longe dele, com a coragem e o coração de quem finalmente decidiu valorizar a vida.

Por Guillhobel A. Camargo – Gazeta de Novo

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