O catador de latinhas e os políticos que não gostam de cheiro de pobre

Linha Verde Norte – Curitiba, 18/12/2023 – Foto: Daniel Castellano / SMCS

Andando pelas calçadas de Curitiba, que é bela para o povo que vem de fora e passeia nela, pensando até que ela é a melhor do mundo, enganam-se em muito. A verdade é que não é bem assim, como ela é revelada nas mídias pagas pela prefeitura. Ontem, em uma dessas calçadas, conversei com um catador de latinhas. Depois de algumas outras considerações – que farei – voltarei a falar do catador de latinhas.

Um pueril engano que a propaganda sobre os tubos do metrô de superfície, belos parques e coleta de lixo inteligente esconde. Ela esconde a pobreza das periferias e como trata os habitantes de rua. A verdade sobre o sofrimento de muitos – e o comportamento de seus habitantes mais abastados – é que o coitado do pobre que anda com roupas sujas nas calçadas é descartado com o lixo.

“O lixo que não é lixo”, ou seja, o pobre, o morador de rua é como a garrafa pet, a latinha e outros lixos que podem ser triturados e colocados em outros lugares e até enviados para outras cidades.

Curitiba é uma cidade onde os motoristas disputam nas ruas o espaço de seus carros, como se estivessem disputando – um só bife na mesa de refeição, mesmo fazendo uma oração a Deus -, que era como os pais e avós (descendentes de alemães, italianos, poloneses e ucranianos), faziam quando chegaram aqui apenas com as sandálias nos pés.

A grande maioria dos primeiros imigrantes trabalhou, montou empresas, produziu nas cidades e nos campos e à noite estavam cansados para ler livros e se instruírem. Mas como eram de origem humilde, gente de boa-fé, acreditaram e seus descendentes ainda acreditam nas mentiras dos políticos.

A Prefeitura de Curitiba, com seu atual prefeito usando a mídia que ele próprio paga com recursos dos cofres públicos, inundou a cidade com comemorações, dizendo que a cidade foi eleita a mais inteligente do mundo. Eleita na feira Smart City Expo World Congress, em Barcelona, na Espanha, onde o prefeito Greca aguardava com uma grande comitiva o resultado do final do concurso. Fico só pensando se teria acomodação em Barcelona para as comitivas de mais de 5.000 cidades brasileiras que também disputavam. Também, se de todo o mundo fossem para Barcelona os prefeitos de mais de 100.000 cidades para aguardar o resultado! O que não conta o alcaide é que desde o início de sua gestão (gestão Rafael Greca – PSD) em 2019, a administração municipal já pagou R$ 11.800.000,00 em contratos para empresas ligadas à premiação. Então, estavam lá em Barcelona, no máximo os 10 primeiros que pagaram para ganhar o título.

Então fica, a nossa cidade, nas mãos desses políticos que, antes de tudo, só tratam de enaltecer seus feitos, mesmo que falsos, para obter benefícios políticos e financeiros.

Como pode ser a cidade mais inteligente do mundo, uma cidade que para fazer 5 km de ruas (linha verde) e um viaduto (bairro do Atuba) demora 23 anos desde o planejamento e de gastos do orçamento iniciado em 2007.

Esta obra, hoje tem mais de 16 anos e ainda não terminaram. O planejamento da Linha Verde começou em 2001, durante o mandato de Cássio Taniguchi (DEM). As primeiras obras começaram seis anos depois, em 2007, na primeira gestão de Beto Richa (PSDB) na prefeitura.

Cássio Taniguchi 2001 a 2004 Reeleito em 2000; Carlos Alberto Richa (Beto Richa) 2005 a 2008; Reeleito em 2008; Luciano Ducci 2010 a 2012 Continuidade do mandato de Beto Richa; Gustavo Bonato Fruet 2013 a 2016 Eleito em 2012; Rafael Greca de Macedo 2017 a 2020, reeleito em 2020 com mandado ainda em vigor 2021 a 2024

Foram cinco (5) prefeitos e sete (7) mandatos 23 anos e ainda não terminaram as obras de asfalto e o único viaduto.

E notem aí que ainda não tem um metro de calçada construída. Uma obra que começou com um orçamento de R$ 115 milhões, depois, no mesmo governo Beto Richa, foi feito um aditivo com mais milhões.
Em 2017, os problemas com o Greca, novo prefeito, continuaram. Greca fez três contratos com a Terpasul estavam estipulados em R$ 151 milhões. Então chegamos na sua reeleição em 2020 com outros aditivos, que levaram a obra para 485 milhões e, que hoje em 2024, deve estar passando de R$ 700 milhões.

Isso não seria possível em uma cidade inteligente, mas foi em uma cidade burra, incompetente onde a versão dos verdadeiros fatos é encoberta pela mídia paga com dinheiro do povo.

Quantos milhões tiveram outros destinos que não foram para concluir a obra de 5 km e um viaduto? E como a sua excelência e seu vice Eduardo Pimentel – que é o candidato à eleição deste ano e que diz, mesmo sendo só vice, que entregará a obra em 2024 – como eles tratam os pobres e os moradores de rua.

Em 1º de abril de 2021, o prefeito Rafael Greca, e seu vice candidato a prefeito enviaram um projeto de lei para multar em até R$ 550 quem distribuir comida para um pobre de rua.

Felizmente pressionado pela mídia até de fora do estado, ele recuou do propósito. Mesmo desistindo da lei da multa, ele reagiu em cima das organizações que tocam um programa não governamental chamado Mesa Solidária.

No ano passado vereadores de Curitiba – câmara que o prefeito Greca detém a maioria – pediram o fim do programa para pobres em Curitiba.

Os vereadores argumentam que a distribuição de alimentos na região central atrapalha comércio na região central. Um dos vereadores líderes do movimento, disse que “o Centro da cidade ‘não é lugar para esse tipo de iniciativa, que deveria ocorrer, por exemplo, dentro da Vila Torres.

A argumentação higienista afirma que, além de prejudicar o comércio, isso estimula o surgimento de “pessoas más” na região central!

A verdade é que o atual prefeito Greca tem ignorado por completo essas pessoas, que não estão tendo acesso a direitos básicos, e pasmem ele já disse uma vez que tem horror ao “cheiro de pobre”.

Não é a primeira vez o que aconteceu no começo de janeiro de 2024, quando a Prefeitura de Balneário Camboriú (SC) fez uma acusação em um vídeo, gravado por um integrante da Abordagem Social, serviço de assistência da Secretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social de Balneário Camboriú, no perfil oficial da equipe no Instagram DENUNCIANDO QUE CURITIBA PAGAVA O ÔNIBUS PARA MORADORES DE RUA IREM PARA CAMBORIU.

Já a Prefeitura de Balneário Camboriú nega mesmo que admitindo que a equipe que divulgou o vídeo, com a acusação, faça parte de uma secretaria da Prefeitura e o vídeo em questão tenha sido publicado na rede social dessa equipe.
A Prefeitura de Camboriú, afirmou que está investigando o caso.
A Fundação de Ação Social (FAS) de Curitiba, órgão que presta o mesmo tipo de serviço na capital paranaense, disse que não emitiu nenhuma passagem com destino a Balneário Camboriú, para o mês de janeiro.
Mas e em dezembro de 2023, ou outros meses teriam mandado emitir passagens para os moradores de ruas mudarem até de estado? É a pergunta que fica.

SOBRE O CATADOR DE LATINHAS

Ele me contou que precisava encontrar nos sacos de lixo 60 latinhas para completar 1 kg, que pagam para ele R$ 5,00 E de cada 20 garrafas PET para completar um kg, que pagam 1,80. Notei que ele, como os demais, não usa luvas e remexem aqueles sacos sem qualquer proteção com o ar que respiram e os germes que levam para o seu corpo. E levam a contaminação do que os atinge, para sua casa, para sua esposa e filhos. Depois de venderem o produto vão a um mercadinho comprar a comida que levam para casa. Me disse que é muito difícil conseguir mais que R$ 30,00 reais por dia e ainda tem que pagar o ônibus ou ir a pé.
O que ele pode comprar com uns R$ 20,00 que sobra. Cada ovo custa 1,00 real, cada litro de leite R$ 6,00, cada pão custa R$ 0,35, cada alface R$ 2,50, mais o arroz e o feijão.
Que vida leva essa família na “cidade mais inteligente do mundo?”

Para encerrar esta minha opinião vai uma poesia ou melhor “ um texto poético”, que acabo de fazer sobre o feijão, e fico triste:

“O feijão”

Nas mesas humildes do Brasil, o feijão é um tesouro escasso, para aqueles que buscam no lixo, latinhas, para sustento de seus passos.

Sob o sol inclemente, eles caminham, juntando 100 latinhas com esforço, para vender por míseros 7,50 reais, e assim, comprar um quilo de feijão.

O feijão, esse grão modesto e grandioso, faz falta nas panelas vazias, é o sonho de quem luta diariamente, para ter um prato quente na vida.

Então, celebremos o feijão, não apenas como alimento, mas como símbolo de esperança, para aqueles que enfrentam sua falta.

Por Gazeta de Novo – Guilhobel A. Camargo

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2 respostas

  1. Como é triste essa realidade em nossas cidades!!!! Principalmente em relação a miséria que nos envolve e que a maioria finge que não vê! Emocionante seu texto poético que encerra esse artigo. A fome ou a baixa qualidade na alimentação dessa classe social seria ainda maior se não fossem as instituições civis e as ONGs que fazem a distribuição de comida e outros artigos de consumo para higiene.

  2. São duas situações diferentes e complexas que compõem essa realidade social de carência.
    ☝️A primeira é a do catador de latinhas que não tem emprego fixo mas tem residencia, ainda que seja uma barraca de lona, e que para lá retorna no final do dia com um litro de leite e as vezes restos de lixos encontrados no meio dos reciclaveis (ate porque essa geração aínda não aprendeu a separar o lixo)
    🤘 A segunda e a mais grave situação é a do verdadeiro morador de rua que não tem para onde ir e dorme nas praças e calçadas e representa um caso de saúde publica tanto para si mesmo como para os comerciantes e transuentes que são obrigados a conviver com fezes a céu aberto que muitas vezes são acobertadas por sacos de areia espalhadas por alguém (comerciantes ou a propria prefeitura – não sei).
    Nas praças e no centro histórico professores levam seus alunos para passeios turísticos e eles se assentam sobre aquelas areias branquinhas sem saber que depois das zero hora aqueles locais se tornam verdadeiras privadas.
    Trabalhei numa loja tambem na Av.sete de setembro perto do shoping Curitiba e na frente da loja a noite era habitada por dezenas de moradores de rua.
    Quando chegavamos de manha para abrir a Loja tinhamos que chegar mais cedo e fazer um verdadeiro mutirão para limpar os defectos deixados.
    É uma situação triste para os comerciantes que pagam impostos…
    Essas pessoas preferem ficar ao relento do que se hospedar na FAS do prefeito!
    POR QUE SERÁ?
    Sugiro que a Gazeta faça uma reportagem perguntando para cada morador de rua :
    O QUE DE FATO ACONTECE LA NA FAS PARA QUE NINGUÉM QUEIRA IR PARA LA?

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