Exclusão, em 1975, da palavra “copetineiro” que começou a nos dividir

Teria sido por “um acaso” ou “uma obra do destino” que nos separa hoje.

      Para que esta história, com “H”, seja melhor compreendida, é necessário lembrar de um playboy brasileiro e socialite conhecido por Jorginho Guinle (Jorge Eduardo Guinle), sobrinho do dono e criador do Copacabana Palace, cujo nome era Octávio Guinle.
Octávio Guinle idealizou e inaugurou o luxuoso hotel em 14 de agosto de 1923, a pedido do presidente Epitácio Pessoa.
Jorginho Guinle, nascido em 1916 (RJ), foi o maior relações-públicas informal da história do Brasil, transformando o Hotel Belmond Copacabana Palace em um polo mundial de glamour.
Como o hotel pertencia ao seu tio, Octávio Guinle, existia um acordo implícito perfeito: Jorginho viajava pelo mundo e “se passava por dono” do Copacabana Palace. Em troca, os hotéis cinco estrelas no exterior não cobravam suas diárias, e ele usava esse status para convencer o primeiro escalão de Hollywood a visitar o Rio de Janeiro. Essa estratégia colocou o hotel — e o Brasil — no mapa do consumo cultural global, em uma época em que o cinema americano ditava as regras do comportamento mundial.
Jorginho era um COPETINEIRO; ele funcionava exatamente como um promoter, relações-públicas e marqueteiro de luxo.

A palavra COPETINEIRO vem diretamente do espanhol platino, da região do Rio da Prata, como Argentina e Uruguai, onde copetín significa um aperitivo, um trago ou uma bebida antes da refeição. No espanhol, o copetinero ou copetinera era quem servia ou trabalhava nesses locais de bebida. Quando a palavra foi aportuguesada no Brasil, em meados do século passado, ela ganhou uma função comercial e humana: passou a designar o profissional refinado que convencia e trazia clientes para os grandes hotéis, bares e restaurantes da época, ganhando um percentual sobre o consumo. Compreendia o ato humano de convidar alguém para compartilhar um copo e uma boa conversa — diferente das últimas décadas do século XX, quando passaram a usar termos como promoter, marqueteiro ou relações-públicas, que são corporativos, frios e muitas vezes importados do inglês de forma desnecessária.
Devo registrar que o COPETINEIRO existia e fazia parte da boemia e do comércio elegante do Brasil, ajudando a manter nossa história de pé.

Veja as celebridades de Hollywood que ele (Jorginho Guinle) trouxe ao Rio de Janeiro
A lista de astros e estrelas internacionais que Jorginho Guinle atraiu para os salões e suítes do Copacabana Palace inclui lendas do cinema mundial:

  • Marilyn Monroe: Conhecida por Jorginho nos Estados Unidos em 1946, quando ela ainda estava no início da carreira. Ele a acompanhou em festas e manteve um de seus romances mais comentados.
  • Rita Hayworth: A eterna “Gilda” foi recebida por ele no Rio de Janeiro, no auge de sua fama hollywoodiana, desfrutando do luxo do hotel.
  • Ava Gardner: Uma das mulheres mais deslumbrantes do cinema clássico, que também figurou na lista de conquistas amorosas e amizades do playboy no Brasil.
  • Ginger Rogers: A famosa parceira de dança de Fred Astaire, que se hospedou no hotel e ajudou a consolidar o Copa como o destino favorito dos artistas.
  • Errol Flynn e Orson Welles: O lendário diretor Orson Welles, inclusive, passou uma longa temporada (seis meses) hospedado no hotel na década de 1940, enquanto filmava um documentário no Brasil.
  • Kirk Douglas e Jayne Mansfield: Outros grandes ícones que circularam pelo Rio de Janeiro sob a tutela e os mimos de Jorginho.

Ao lembrar de Orson Welles, tenho que registrar que ele morou seis meses no Brasil e, para pagar as contas do Copacabana Palace, nos últimos três meses, assim como Jorginho Guinle, também se tornou um COPETINEIRO.

Em 1941, Orson Welles havia chocado o mundo com Cidadão Kane, considerado até hoje um dos maiores filmes da história. Ele era visto como um prodígio intocável. No início de 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, o governo dos EUA o enviou ao Brasil como embaixador (na verdade, foi enviado pelo OCIAA — Gabinete do Coordenador de Assuntos Interamericanos, que mais tarde se tornou a CIA) com um falso pretexto de promover uma “Política da Boa Vizinhança”.
A missão dele era filmar um documentário chamado It’s All True (“Tudo é Verdade”) para aproximar as Américas e revigorar a Doutrina Monroe.
Hospedado no luxuoso Copacabana Palace, com tudo pago pelo governo dos EUA, Welles deveria ser o centro das atenções da elite carioca.
Porém, sua mente estava em outro lugar, envolvendo o brasileiro Manuel “Jacaré”, a artista mexicana Dolores del Río, morros cariocas e gafieiras do Rio.

Depois de “Manuel Jacaré”, “Dolores” e “gafieiras”, veja o que levou Orson Welles a jogar sua máquina de escrever pela janela do Hotel Copacabana Palace:

  • J. Edgar Hoover, diretor do FBI, que comandou a agência de 1924 até sua morte em 1972, exerceu uma influência gigantesca nos bastidores da política norte-americana, especialmente durante a Guerra Fria, com conexões com grandes empresários americanos. Montou dossiês contra Welles, usando Nelson Rockefeller como uma espécie de comissário cultural interessado em extrair riquezas da nossa Amazônia, principalmente látex para sua fábrica de pneus. Com esse dossiê, Hoover aproveitou o cargo para estreitar laços com os grandes estúdios de cinema (como RKO e MGM).
  • Hoover também cuidou para que o FBI financiasse a vinda de Welles ao Brasil. Como Nelson Rockefeller, desde o início  da Segunda Guerra Mundial, nomeou Jorginho Guinle como uma espécie de comissário cultural dos EUA no Brasil, deu um “perdão” a Orson Welles, com cargo semelhante ao de Jorginho, com tudo pago para vir ao Brasil com sua equipe filmar o documentário It’s All True (“Tudo é Verdade”).

Essa é uma das muitas ações que nossa ABIN, a família Bolsonaro (Jair, Eduardo, Renan e o candidato Flávio), e seus coligados nos EUA e aqui, políticos com mandatos, ex-ministros e o chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro, entregam “de bandeja” a nossa soberania a um país que faz o que quer com nações sem arsenal atômico e com economia menor que 10% do PIB dos EUA. Vendem e entregam nossas riquezas, oferecem tudo o que temos, mentem ao povo e usam religiões na política apenas para manterem seus interesses pessoais, visando retomar o poder e enriquecer na pessoa física.
Copiaram até a ideia do filme documentário It’s All True, criando uma versão da vida de Jair M. Bolsonaro em inglês, com o título Dark Horde, para voltarem ao poder no Brasil e continuarem fortalecendo a Doutrina Monroe — entregando minerais das terras raras, nosso petróleo, nosso PIX e nossa soberania de mãos beijadas para os EUA.

Voltando a Orson Welles e sua condição de COPETINEIRO por três meses no Brasil:


A história de Welles jogando sua máquina de escrever pela janela do Copacabana Palace é um episódio caótico, folclórico e dramático da crônica do Rio de Janeiro. O incidente ocorreu em 1942, quando o jovem prodígio de Hollywood, que havia revolucionado o cinema com Cidadão Kane, morou por seis meses no hotel.
O ataque de fúria resultou de uma devastadora desilusão amorosa, pressões políticas internacionais e o colapso de sua carreira em Hollywood.

O Estopim amoroso: o fim com Dolores del Río
Welles tinha um relacionamento intenso e público com a atriz mexicana Dolores del Río, considerada uma das maiores e mais belas estrelas da era de ouro do cinema. No entanto, a distância provocada pela longa estadia de Welles no Brasil azedou o romance.
Em uma tarde, após uma discussão acalorada por telefone, Dolores terminou a relação. Tomado pelo desespero, pelo álcool — já que Welles havia aderido à cachaça e à boemia carioca —, o cineasta teve um surto de raiva. Ele destruiu parte do quarto e arremessou sua máquina de escrever e várias louças pela janela da suíte, que caíram estrondosamente na piscina do hotel.

O Contexto político: a pressão dos EUA e o descontentamento
A viagem de Welles ao Brasil não era meramente artística, mas uma missão geopolítica. Enviado pelo governo dos EUA na “Política de Boa Vizinhança” de Franklin D. Roosevelt, seu objetivo era produzir o documentário It’s All True para estreitar laços com a América Latina e contrabalançar a influência do Eixo na Segunda Guerra Mundial.
No entanto, sua visão de filmar a cultura negra, o samba e os jangadeiros desafiaram os interesses da produtora RKO e dos financiadores americanos, que consideraram o material “comunista” ou inadequado para a propaganda da época. Assim, cortaram fundos e boicotaram seu trabalho, deixando Welles isolado no Rio.

A tragédia dos jangadeiros
Em 1941, os quatro jangadeiros cearenses liderados por Manuel “Jacaré” navegaram 2.500 km do Ceará ao Rio, em uma jangada frágil, exigindo direitos trabalhistas de Getúlio Vargas. Welles, encantado com a história de heroísmo, decidiu filmar uma reencenação da chegada deles na Baía de Guanabara em 1942. Durante as gravações, uma onda forte virou a jangada, Jacaré caiu no mar e nunca foi encontrado. Desolado, Welles quase desistiu, mas decidiu terminar o filme em Fortaleza, como homenagem póstuma.

O abandono financeiro e a “pensão” de Octávio Guinle
Após o acidente, os financiadores cortaram o apoio a Welles. Sem dinheiro, ele passou os últimos três meses no Rio vivendo de graça, bancado por Octávio Guinle, fundador do hotel e tio de Jorginho Guinle. Inspirado pelo talento do diretor, Guinle proibiu os funcionários de cobrarem por seus gastos, considerando tudo um “prejuízo do próprio hotel”, na verdade um pagamento de Guinle a Welles, que atuava como “COPETINEIRO” — divulgando as belezas do Rio em Hollywood.

A conexão de elite: Nelson Rockefeller (a serviço da CIA) e Octávio Guinle
A aliança entre Nelson Rockefeller e Octávio Guinle fortaleceu suas fortunas e influência política.

  • Para Rockefeller: confirmou a Doutrina Monroe, controlando recursos estratégicos na América do Sul, especialmente na Amazônia, impulsionando negócios familiares e interesses geopolíticos.
  • Para Guinle: garantiu a solidez de seu império, especialmente o Porto de Santos, gerenciado pela família há 92 anos, e consolidou o Copacabana Palace como epicentro da diplomacia corporativa global.

Nelson Rockefeller cobriu os custos de passagem de Welles e sua equipe de volta aos EUA. Uma elite das Forças Armadas brasileiras sempre se curvou aos interesses do Tio Sam, desde a proclamação da República até dentro dos quatro anos do governo Bolsonaro.

Octávio Guinle ampliou sua fortuna; Jorginho Guinle morreu pobre em 2004, vivendo seus últimos anos de favor no Copacabana Palace, em uma suíte cedida por cortesia de James Sherwood, proprietário do hotel. Sobreviveu com aposentadoria modesta e, na velhice, trabalhou como guia e consultor para brasileiros ricos na Europa.

A palavra COPETINEIRO desapareceu da língua portuguesa brasileira após 1975, quando Aurélio Buarque de Holanda lançou o Novo Dicionário da Língua Portuguesa (conhecido como Dicionário Aurélio).

Orson Welles retornou aos EUA em 1942, fez mais filmes e acumulou uma fortuna de 20 milhões de dólares, falecendo em 1985.


Por Guilhobel Aurélio Camargo – Gazeta de Novo

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