A sabedoria dos justos ou a conveniência dos covardes?

Uma reflexão sobre a liderança e o abandono político.

Arte: Gerd Altmann/Pixabay

    A verdadeira estatura de um homem público não é medida no momento da vitória, quando os aplausos são fáceis e o poder é um vento que sobra a favor. Ela se revela, de forma nua e crua, no instante exato da derrota. É na adversidade que o verniz da retórica descasca e o que sobra é o caráter essencial do indivíduo.         

        Recentemente, assistimos a um espetáculo melancólico na política brasileira que ilustra com perfeição essa dinâmica: a postura do candidato Flavio Bolsonaro que, ao se ver derrotado, escolheu o caminho do recuo. Em vez de liderar, fugiu para os Estados Unidos via aérea, pagando ao dono do avião um frete de U$ 150.000,00 com apoio do governo argentino e do governo Trump. Essa fuga e os apoios estrangeiros afrontam gravemente a soberania dos países envolvidos e escancaram a conivência de seus governantes, deixando uma legião de eleitores — parte expressiva daqueles 58 milhões de votos de  cidadãos que outrora confiaram no projeto de seu grupo político — em um profundo estado de surpresa, desolação e justa revolta.

       Para compreender a gravidade desse abandono, permito-me pegar emprestadas as lições eternas de Aristóteles em sua obra-prima, “Ética a Nicômaco”. Há mais de dois milênios, o filósofo grego nos ensinou que a justiça não é uma ideia abstrata para ser guardada em livros; ela é a maior de todas as virtudes humanas porque é, essencialmente, uma virtude ativa. Ela se manifesta nas nossas ações em relação ao outro. Quando um líder recebe a confiança de milhões de pessoas, algumas bem-informadas outras nem tanto, que enxergam nele a personificação de seus valores e anseios, ele assume um compromisso moral que transcende a sua própria individualidade. Ele se torna o guardião de uma esperança coletiva.

      Aristóteles explicava que as falhas morais humanas geralmente se manifestam por dois vícios terríveis: a covardia e a conveniência egoísta (o que ele chamava de pleonexia, o desejo de reter para si mais vantagens do que o justo). Quando confrontado com a perda do poder que esperava alcançar, a resposta do candidato derrotado não foi a resiliência ou a liderança firme na oposição; foi uma fuga internacional estrategicamente arquitetada. Deixar o país às pressas diante de um cenário de crise não é um ato de “prudência política”, como alguns seguidores tentam justificar em redes sociais. É, sob a ótica aristotélica, a mais pura expressão da covardia. É o equivalente ao general que joga o escudo no chão e abandona o campo de batalha para salvar a própria pele, deixando seus soldados desorientados à mercê da própria sorte.

       Essa retirada desesperada ganha contornos ainda mais graves quando observamos o pano de fundo que a motivou. O candidato não escapou apenas da derrota eleitoral, mas sim do avanço da Justiça sobre o fundo de corrupções que cometeu, envolvendo a lavagem de dinheiro subtraído de aposentados do INSS, também de acertos financeiros criminosos com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master. Também nesse mês de outubro , a PF abriu inquérito contra Flavio, sobre o ele ter em um banco o cadastrado com – “acesso master” de uma conta bancária da offshore Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, – onde encontrasse depositado o valor de R$ 6 bilhões de reais em que o STF já determinou bloqueio deste valor.

      A investigação sobre esses desvios e movimentações suspeitas revela que a suposta “sabedoria” da debandada foi, na verdade, a pressa de quem sabe o peso dos crimes que carrega nas costas e pelos quais terá de responder.

      O sentimento de revolta que hoje consome grande parte dessa base eleitoral é legítimo e perfeitamente explicável pela filosofia. O eleitorado sentiu na pele o peso da conveniência individual do líder. Ao optar pelo exílio voluntário para preservar seu bem-estar pessoal, suas alianças de bastidores ou sua segurança jurídica individual, o candidato escolheu ficar com a melhor parte do quinhão — o conforto da autopreservação — e empurrou para os seus seguidores o lado mais amargo da derrota, que é:

o desamparo e a desilusão.

Houve uma quebra drástica do “justo meio”.
         A coragem aristotélica exigiria enfrentar o revés com dignidade, mantendo-se no país para responder pelos seus atos. A covardia, por outro lado, fez com que ele cruzasse fronteiras pelo medo do prejuízo pessoal e da prisão.

         Dizer que “fugir da injustiça ou da derrota é sabedoria” é uma falácia que destrói o tecido ético de qualquer sociedade. A verdadeira sabedoria está em manter a retidão do caráter mesmo quando o cenário é desfavorável.
        Quando uma liderança política demonstra que sua prioridade absoluta é o “eu” em detrimento do “nós”, ela revela uma trágica falta de caráter e de estatura moral. Os 58 milhões de votos que legitimaram aquele grupo político mereciam respeito, clareza e, acima de tudo, a coragem da presença.

        Ao escolher a conveniência do isolamento egoísta no exterior, Flávio Bolsonaro não apenas perdeu uma eleição; ele abdicou do direito de ser chamado de líder, provando que, para os covardes, o poder é apenas um privilégio pessoal, enquanto para os homens justos, a liderança é uma responsabilidade intransferível.

A força necessária dos justos, exige que eu termine está opinião com um aforismo de Albert Einstein:

 “O mundo é perigoso não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que veem e não fazem nada.”

Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo  

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