A manipulação do poder e o modus operandi dos EUA na América Latina

 Para ganhar a liberdade uma nação tem que lutar diariamente.

Foto: Reprodução

Nos dias atuais, é impossível ignorar o quanto as ações de líderes e governos na América Latina estão sendo moldadas por interesses globais que transcendem as fronteiras nacionais. Recentemente, um artigo de Carlos Pagni, publicado na La Nación de Buenos Aires, revela uma intricada teia de relações e estratégias que evidenciam uma constante interferência dos Estados Unidos e de seus aliados na região, muitas vezes em conluio com figuras locais e interesses econômicos internacionais. Como jornalista brasileiro, não posso deixar de expressar minha profunda indignação diante dessas ações que parecem estar sempre voltadas a manter a hegemonia do Tio Sam, manipulando eleições, fomentando conflitos internos e promovendo uma política de intervenção disfarçada de solidariedade.

O artigo destaca que, na recente disputa política na Argentina, figuras como Javier Milei têm atuado como peças de um jogo muito maior, onde interesses de facções internas e externas se cruzam. A viagem de Milei a Madrid para apoiar candidatos do Vox, a troca de insultos com Lula, a tentativa de impor uma liga pró-Trump na América Latina e o alinhamento com a doutrina “America for Americans” revelam uma estratégia clara de dividir, conquistar e controlar. Essa postura, que visa fortalecer a influência norte-americana na região, não é novidade. Desde a Doutrina Monroe, os EUA vêm agindo de forma a consolidar sua presença, muitas vezes usando banqueiros, empresários e órgãos de inteligência como a CIA e o FBI para manipular, espionar e cooptar lideranças locais, tudo em nome de seus interesses geopolíticos e econômicos.

O caso da Argentina é emblemático. A intervenção de Xi Jinping, condenando qualquer interferência externa na política brasileira, demonstra que o conflito não é apenas entre Milei e Lula, mas uma batalha mais ampla onde interesses de grandes potências estão em jogo. A narrativa de que os Estados Unidos apoiam certos candidatos e estratégias na América Latina tem raízes profundas, e os relatos de espionagem de cidadãos latino-americanos pelos órgãos de inteligência dos EUA reforçam essa tese. Não é por acaso que as operações de espionagem, financiamento de campanhas e manipulação de informações são uma constante na história recente do continente.

Javier Milei participou do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente preso, realizado no estádio Pacaembu, em São Paulo. Flávio tem uma trajetória marcada por escândalos de corrupção, incluindo ligações a um banqueiro judicialmente problemático que financiaria sua campanha. Após restrições impostas por um ministro do STF, Milei interpretou a situação como uma limitação pessoal e, durante o evento, chamou Lula de corrupto e ladrão, além de criticá-lo e ao magistrado Alexandre de Moraes de forma pejorativa.

Essas declarações geraram forte repercussão nas autoridades brasileiras. O presidente do STF rejeitou uma queixa contra a Justiça brasileira, enquanto Lula, por meio do ministro Mauro Vieira, chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas, um passo que pode indicar uma crise diplomática. Tal situação remete a episódios anteriores, como a crise com a Espanha, quando Milei participou de evento em Madrid, criticando o presidente Pedro Sánchez e sua esposa, levando a uma longa ausência do embaixador espanhol na Argentina.

No Brasil, há uma tentativa de evitar escaladas no conflito devido à sensibilidade na relação bilateral. A embaixada brasileira em Buenos Aires é uma das mais importantes após Washington, e os diplomatas brasileiros, como Vieira e Bitelli, possuem profundo conhecimento do país, o que pode dificultar uma postura mais dura contra Milei.

A relação entre o Brasil e a Argentina, que deveria ser de cooperação e respeito mútuo, frequentemente é usada como palco de disputas influenciadas por interesses externos. O apoio de Bolsonaro a Donald Trump, a busca por negócios ligados à tensão com a China, e as promessas de terras raras e tarifas zero para etanol, representam ações que favorecem os interesses norte-americanos e seus aliados econômicos. Esses movimentos são parte de um modus operandi que visa enfraquecer a soberania latino-americana e consolidar a dominação econômica e política dos EUA na região.

Mais uma vez, vemos que o padrão se repete. Como bem disse o grande pensador e estadista John F. Kennedy, em seu discurso de posse, “não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo seu país”. Entretanto, os EUA parecem agir ao contrário: fomentam divisões, apoiam candidatos e movimentos que servem a seus interesses, manipulando eleições e promovendo conflitos internos, tudo sob a máscara de apoiar a democracia. Essa é uma prática antiga e contínua, que remonta à Doutrina Monroe e à política de intervenção, onde banqueiros, empresários e órgãos de inteligência atuam de forma coordenada para garantir o controle sobre os recursos e os governos latino-americanos.

É fundamental que, como jornalistas e cidadãos conscientes, denunciemos essas manobras e exijamos uma postura soberana de nossos governos. Não podemos aceitar que interesses estrangeiros, sob o pretexto de apoio ou solidariedade, imponham suas vontades e manipulem nossas democracias. A história mostra que a interferência externa, muitas vezes apoiada por operações de espionagem e financiamento clandestino, é uma estratégia antiga dos EUA para manter sua hegemonia na região. Como afirmou o filósofo Noam Chomsky, “a manipulação da opinião pública e a interferência nas eleições são ferramentas essenciais na manutenção da dominação imperial”.

Portanto, é hora de refletirmos sobre o verdadeiro espírito da soberania e da independência. Não podemos permitir que nossos destinos sejam decididos por interesses externos, que jogam com nossas instituições e nossos povos. Como disse o pensador argentino José Ingenieros, “a liberdade não é um presente, é uma conquista diária”, e essa conquista só será possível se resistirmos às tentativas de manipulação e intervenção estrangeira, defendendo uma América Latina livre, soberana e unida.

Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo

Compartilhe nas suas redes socias!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *