Quem supõe haver erro gráfico na grafia da nossa centenária COPEL, pelo mero acréscimo de um “P”, incorre em ledo engano.

Considero que estou usando um “anacronismo deliberado” — que alguns poderão chamar de “analogia histórica”, “paralelismo histórico” ou, ainda, “intertextualidade”. Vamos aos fatos:
A Copel (Companhia Paranaense de Energia), com um “p”, é uma S.A. de capital aberto cujo controle administrativo foi entregue ao domínio dos investidores em ações nas Bolsas de Valores, tanto no Brasil quanto no exterior. O Governo do Estado do Paraná perdeu o controle majoritário dos votos e também da administração da companhia em 14 de agosto de 2023, com a liquidação da oferta pública de ações na Bolsa de Valores (B3). Esse movimento não ocorreu por uma derrota inesperada em uma votação interna do conselho, mas sim por meio de um plano estratégico e voluntário de privatização por capitalização, conduzido pelo próprio governo de Ratinho Júnior.
Antes de continuar com o caso específico da Copel paranaense, abro um pequeno en passant para levá-los à história com a qual faço o meu anacronismo deliberado. Utilizo como espelho a obra “Coppel-i.A. — Les Ballets de Monte Carlo”, criada por Jean-Christophe Maillot para a prestigiada companhia. Trata-se de uma releitura futurista e distópica do clássico balé romântico Coppélia, de 1870. A obra reconstrói a narrativa tradicional ao trocar o universo dos brinquedos mecânicos do século XIX pelo mundo da inteligência artificial, dos androides e da busca humana pela perfeição tecnológica.
O título original da peça de 1870 é Coppélia, derivado diretamente do nome de seu criador na história, o inventor Dr. Coppélius. A obra inicial trata da busca pelo parceiro ideal e questiona a nossa tendência moderna de idealizar o amor. Ao preferir a androide, o jovem Frantz — personagem da obra que em nada difere do jovem governador Ratinho Júnior — escolhe um algoritmo programado para agradar, esquivando-se da complexidade, dos erros e das imperfeições inerentes a um relacionamento real de carne e osso (substituindo, no nosso paralelo, as “imperfeições” naturais e humanas dos funcionários da Copel). Ele é enfeitiçado pela perfeição fria, milimétrica e desprovida de falhas humanas da androide Coppel-i.A.
Voltando à “nossa” nova Copel, passo a explicar como funciona a estrutura de corporação de capital disperso (corporation) desde o dia 14 de agosto de 2023, quando a empresa concluiu o processo que a transformou em uma companhia “sem um acionista controlador definido”. O funcionamento prático desse modelo se baseia nos seguintes pilares de governança:
Limitação de Poder de Voto (10%): Nenhum acionista ou grupo de acionistas, independentemente de quantas ações possua, pode exercer votos que representem mais de 10% do capital votante da companhia. Isso foi desenhado para impedir que grandes fundos privados ou o próprio governo retomem o controle absoluto de forma isolada. Ou seja: mesmo que seja eleito um governador de oposição, nada poderá ser feito para retornar a Copel ao formato anterior, no qual o Conselho da companhia — com membros nomeados pelo governador eleito — aplicava políticas em defesa do povo, razão primordial pela qual a Copel fora criada e pela qual cumpriu tantas ações sociais.
Mecanismo de Defesa (Poison Pill): O novo estatuto social exige que, se qualquer investidor ou grupo atingir uma fatia de 25% ou mais das ações ordinárias, ele será obrigado a realizar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para comprar todas as ações dos demais minoritários por um valor estipulado. Isso encarece e impede aquisições hostis.
Ação de Classe Especial (Golden Share): O Estado do Paraná reduziu sua participação votante de quase 70% para cerca de 32,32%. Ele não dita mais as regras comerciais ou administrativas, mas retém uma ação especial que lhe garante poder de veto exclusivamente em decisões estratégicas específicas (como mudar o nome da sede ou alienar ativos de saneamento/geração estruturais). Estas “decisões estratégicas específicas” são apenas para questões primárias; atendem só a casos menores e comuns que não interferem no dia a dia da empresa, deixando de fora as diversas decisões cotidianas da Copel pós-venda do controle acionário.
A empresa fechou várias portas de atendimento presencial aos usuários. Muitos deles são idosos e pessoas simples que não dominam — e sequer possuem recursos para acessar — as novas tecnologias para tratar de questões básicas, como a emissão de segundas vias de contas, religações por corte de luz ou parcelamentos. A Copel age hoje como os bancos, que não querem mais seus correntistas dentro das agências e empurram os clientes para a internet. Para descobrir o mal que isto causa aos idosos e aos vulneráveis, basta ir às agências bancárias nos finais e inícios de mês e testemunhar por quantas horas eles esperam por um atendimento digitalizado que os exclui. Se isto não bastasse funcionários de bancos perderam e perdem seus empregos e os funcionários da Copel também estão perdendo.
Unificação de Ações (Novo Mercado): Sob o argumento de que visava ao “mais alto nível de governança corporativa da bolsa B3”, a Copel converteu suas antigas classes de ações preferenciais (como a CPLE6) em ordinárias (CPLE3), com direito a voto.
Sobre os negócios feitos sob a Copel e investigações da Polícia, MP e Justiça
O que mais preocupa hoje o governo Ratinho Jr. é que o empresário Nelson Tanure — peça fundamental, com suas empresas, na modelagem da venda do controle da Copel — enfrenta uma grave crise jurídica e financeira. Tornou-se alvo direto da Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero, o que colocou a privatização e a atual tentativa de venda da ex-Copel Telecom (renomeada para Ligga Telecom) sob intensa suspeita.
Financiamento sob Suspeita: Nelson Tanure arrematou 100% da Copel Telecom em novembro de 2020 por R$ 2,39 bilhões através do fundo Bordeaux. As investigações da PF apontam que o Banco Master financiou uma parcela muito significativa dessa aquisição.
Denúncias sobre a Modelagem: Políticos da oposição no Paraná e delatores do mercado financeiro afirmam publicamente que o Banco Master modelou a estrutura de venda de ativos estatais do Paraná, beneficiando diretamente os negócios de Tanure. Com a operação da PF, deputados estaduais cobram explicações oficiais do governo paranaense.
Inquérito no STF por Perseguição: O caso ganhou mais tração no STF após o envio de um inquérito relatando que Tanure e o grupo do Banco Master teriam coagido e perseguido investidores minoritários e gestores de fundos que tentavam denunciar o esquema às autoridades.
Parágrafo Final (Impacto e Crítica Social)
É nesse cenário de frieza algorítmica e desumanização que a farsa da modernidade se revela por inteiro. Ao mimetizar o feitiço distópico de Coppel-i.A., o governo estadual entregou o patrimônio paranaense à insaciável lógica dos balcões de negócios e das telas frias da Faria Lima. A celebração do “mais alto nível de governança” nada mais é do que o sepultamento da função social de uma empresa pública. Enquanto acionistas brindam a lucros bilionários garantidos por bytes e equações financeiras, o cidadão comum — o idoso sem letramento digital, o trabalhador humilde da periferia e do campo — é empurrado para a mais cruel exclusão social. Para estes, que não possuem voz nas assembleias de acionistas e cujas mãos calejadas não dominam as telas dos smartphones, a privatização não trouxe o futuro reluzente das novas tecnologias, mas sim a escuridão do desamparo, a humilhação das portas trancadas e o congelante silêncio do atendimento automatizado.
O Paraná escolheu o algoritmo; o povo herdou o apagão da dignidade.
Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo

