Dividir para governar – “Divide et impera” – é o que fazem os EUA com o Brasil

Grupos de políticos, jornalistas e o povo são divididos, com intrigas, para facilitar o controle por parte de um terceiro interveniente.

Imagem: Pixabay

Esta é uma estratégia política e militar histórica que consiste em criar e fomentar divisões entre oponentes (outros países concorrentes comerciais) para evitar que o povo se una contra um poder central, facilitando o controle, a conquista ou a manutenção do poder sobre outro país.

Frequentemente, essa ação é atribuída a Júlio César na conquista da Gália, embora seja uma estratégia política antiga, recorrente na história militar e colonial.

A Companhia Britânica das Índias Orientais e, posteriormente, o governo britânico usaram essa estratégia na Índia por séculos. Eles exploraram as divisões existentes entre os diversos Estados principescos, grupos religiosos (hindus e muçulmanos, por exemplo) e castas, para garantir que nunca se unissem contra o domínio britânico. Isso incluiu a criação de “estados nativos” que operavam sob a suserania britânica e a manipulação de tensões sectárias, uma política que teve consequências duradouras, culminando na Partição da Índia em 1947.

O Império Ming dividiu as tribos Jurchen em grupos para enfraquecer sua autoridade.

O Raj Britânico, que foi aplicado na “Partição de Bengala” (1905), buscava gerenciar tensões religiosas e nacionalistas, separando hindus e muçulmanos.

No Brasil, não é de hoje que somos “atacados” pelo imperialismo ianque ou americano, cuja influência dominante política, econômica, militar e cultural dos EUA sobre outras nações foi intensificada após 1823, com a Doutrina Monroe. Essa doutrina pregava a não intervenção europeia nas Américas e, em contrapartida, a não intervenção americana nos assuntos europeus, mas abriu caminho para o imperialismo estadunidense, justificando futuras intervenções na América Latina sob o manto da defesa do hemisfério. O lema era “América para os Americanos”.

Em 1937, a empresa Standard Oil, da família Rockefeller, começou a visitar a Amazônia brasileira, motivada por um fascínio por parte de Nelson Rockefeller. Ele considerava a região uma nova versão do Oeste selvagem, a origem da fortuna da família Rockefeller nos EUA, que incluía empresas como Chase Manhattan Bank, Standard Oil of New Jersey (Esso), Eastern Airlines e o Rockefeller Center, em Nova York. A primeira tarefa da família Rockefeller, que garantiria o monopólio da produção de pneus, incentivada pelo governo dos EUA, foi dominar a nossa Amazônia. A Casa Branca estava preocupada com a recente tomada das plantações de borracha da Malásia pelos japoneses, e a estratégia era garantir a produção e a saída da borracha brasileira.

Em 960 páginas, o livro “Thy Will Be Done” (“Seja feita a tua vontade”), escrito por Gerard Colby e Charlotte Dennett ao longo de 18 anos e lançado em 1996, relata denúncias do envolvimento de corporações, missionários e da CIA na morte de índios e na exploração do látex da seringueira, comandadas no Brasil por Nelson Rockefeller e pelo líder protestante Cameron Townsend.

Em 1950, orquestrado pelos EUA, começou um enredo que culminaria no golpe de 1964. O que Carlos Lacerda afirmou em 1950, pouco antes das eleições, foi profético: “…Se Getúlio for eleito, não poderá assumir, e se assumir, deve ser deposto”. Getúlio Vargas foi eleito e, em 1952, criou a Petrobras. João Goulart, então ministro do Trabalho, dobrou o salário mínimo e iniciou esforços para fortalecer e incentivar a criação de sindicatos, o que gerou resistência.

O governo dos Estados Unidos, para proteger suas “irmãs” (Exxon, Texaco, Mobil, Amoco e Chevron) contra a concorrência da Petrobras, criou uma estrutura no Brasil, alimentada pelos Diários Associados, então controlados pelo empresário e jornalista Assis Chateaubriand, apoiado pelos militares e usando a voz de Carlos Lacerda em suas mídias. A sanha golpista levou ao suicídio de Getúlio Vargas em 1954. Tancredo Neves afirmou que o suicídio de Vargas atrasou em 10 anos o golpe militar, que aconteceria com o comando do Exército em 1964, novamente com o apoio dos EUA e da maçonaria, conhecida como “Forças Ocultas”.

O golpe de 1964 ocorreu quando as forças armadas brasileiras, sempre alinhadas aos interesses dos EUA, atuaram com o apoio da CIA, da maçonaria, da igreja e de associações de mulheres de generais no Rio de Janeiro, que recebiam recursos da “Aliança para o Progresso”. Valores enviados dos EUA com orientação do general Golbery do Couto e Silva e seu amigo o General  Vernon Walters, que serviu como adido militar na embaixada dos EUA no Brasil e, posteriormente, como Embaixador dos EUA na Organização das Nações Unidas (ONU) e Diretor da CIA.

O interesse das montadoras e suas fornecedoras de peças em manter seus lucros no Brasil também teve peso. Essas empresas enfrentaram resistência de industriais paulistas e de partidos de esquerda, que propunham limitar a remessa de lucros, criando oportunidades para a indústria brasileira se tornar fornecedora de peças.

Após anos de instalação das montadoras no Brasil, especialmente a partir de 1961, com a posse de John F. Kennedy, a aproximação entre militares e empresários estadunidenses aumentou, culminando na implantação da ditadura em 1964.

Tivemos, então, de um lado, a CIA comprando parlamentares brasileiros para impedir a aprovação de leis que limitassem a remessa de lucros, e, de outro, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) unida a partidos de esquerda para fazer lobby no Congresso por um limite máximo de 10%. Essa legislação, se aprovada, evitaria a fuga de divisas e facilitaria a instalação de novas empresas estrangeiras, fortalecendo a indústria nacional.

A lei foi aprovada em agosto de 1963, após resistência de João Goulart, que relutou por seis meses até sancioná-la em janeiro de 1964. Ao assinar, seu ministro do Trabalho, Amauri Silva, declarou: “O senhor acaba de assinar a sua deposição”. Dois meses depois, em 31 de março, Jango foi deposto. Meu pai, Guilhobel, que era assessor do ministro, confirmou essa versão, e um  ano depois os militares revogaram a lei.

Tudo isso demonstra que os EUA, na época, estavam interessados em extrair as nossas riquezas, manter o avanço industrial do Brasil, e não tinha relação com a suposta ameaça comunista (Jango era latifundiário, não comunista, como afirmou o embaixador Lincoln Gordon).

Entre 2015 e 2016, iniciou-se a cooperação na Operação Lava Jato, sob comando dos EUA, mais uma vez atentando contra a soberania do Brasil.

O jornal francês Le Monde publicou, em 10 de abril de 2021, uma reportagem revelando como os EUA usaram a Lava Jato para seus próprios fins. A matéria relata a estratégia bem-sucedida dos EUA para minar a autonomia geopolítica brasileira e acabar com a ameaça representada pelo crescimento de empresas que poderiam desafiar seus interesses. Com base em diálogos da “Vaza Jato” e investigações posteriores, a reportagem indica que a força-tarefa da Lava Jato manteve cooperação com autoridades americanas, muitas vezes fora dos canais oficiais. Em 2015, 17 agentes americanos, incluindo membros do FBI e do Departamento de Justiça, estiveram em Curitiba para reuniões com Deltan Dallagnol, sem autorização formal do governo brasileiro, violando tratados de assistência mútua.

Em 2023 e 2024, surgiram novidades, como negociações secretas envolvendo multas da Petrobras. Deltan Dallagnol, ex-juiz Moro e autoridades americanas teriam negociado o destino de multas bilionárias cobradas da Petrobras, mencionando também a prisão do ex-presidente Lula como um “presente da CIA”.

Atualmente, esses episódios estão sendo investigados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e por processos na Vara Federal e no STF, que apuram possíveis desvios de finalidade e atuação conjunta indevida com agentes americanos, prejudicando empresas brasileiras.

O relatório da Corregedoria Nacional de Justiça, assinado pelo delegado da Polícia Federal Élzio Vicente da Silva, concluiu que Deltan Dallagnol, Daniella Hardt e Sergio Moro atuaram em conluio para desviar cerca de R$ 2,5 bilhões do patrimônio brasileiro, com o objetivo de criar uma fundação voltada a interesses privados. Esse grupo utilizou a 13ª Vara Federal de Curitiba e agentes públicos americanos para facilitar o desvio de recursos.

O comando das Forças Armadas, sob forte influência dos EUA, discutiu estratégias para impedir a posse ou a permanência de Lula no poder, chegando Bolsonaro e seus asseclas a elaborar um documento jurídico para um possível golpe. Hoje, Jair Bolsonaro está condenado, assim como outros 43 envolvidos no golpe contra a democracia, todos cumprindo penas.

Mesmo com a atenção de órgãos como PF, STF, STJ, ABIN, PGR e CNJ, o governo americano mantém contato com setores da extrema direita brasileira, incluindo o Congresso, e não há garantias de que novos fatos não possam vir à tona antes das eleições de 2026, perpetuando a influência “América para os Americanos”.

Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo

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