Como e porque o cristianismo usou a data de 25 de dezembro, que era de uma festa pagã para expansão de sua doutrina

Usando tradições autênticas das culturas existentes que foram subjugadas para seus propósitos.

Foto: Tatiana_Pascuas/Pixabay

O cristianismo, em sua trajetória de expansão, demonstrou uma notável capacidade de adaptação, especialmente ao incorporar elementos de tradições pagãs. Um exemplo marcante dessa prática é a escolha do dia 25 de dezembro como a data do nascimento de um “certo Jesus”, filho de um deus, como sendo um humano e também divino. É importante ressaltar que não há menção na Bíblia sobre a data do nascimento de um Cristo; a decisão de celebrar nesse dia foi uma estratégia consciente da Igreja para facilitar a conversão dos pagãos.

Duas festividades pagãs que influenciaram essa escolha foram a Saturnália e o Dies Natalis Solis Invicti. A Saturnália, uma celebração romana em homenagem a Saturno, o deus da agricultura, ocorria na segunda quinzena do mês de dezembro. Era um período marcado por banquetes públicos, troca de presentes, e um relaxamento das normas sociais, criando um clima de folia que foi absorvido pelas práticas natalinas. Por outro lado, o Dies Natalis Solis Invicti, celebrado em 25 de dezembro, homenageava o deus sol e coincidia com período do solstício de inverno no hemisfério norte(dia mais curto do ano 22/12), simbolizando o “renascimento” do sol, quando a luz começava a aumentar, após ficar aparentemente “parado” por 3 dias na sua posição mais ao sul.

A apropriação dessas datas pagãs se deu por meio de uma estratégia bem delineada:

Sincronização de Datas: Ao escolher o dia 25 de dezembro como a data do nascimento de Cristo, os líderes cristãos do século IV d.C. permitiram que a população local continuasse a celebrar suas festividades na mesma época do ano, mas agora com um novo significado religioso. Essa escolha facilitou a transição para o cristianismo, ao criar uma continuidade cultural que minimizava a resistência.

Ressignificação Simbólica: A Igreja utilizou o simbolismo da luz e do “renascimento” do sol após o solstício de inverno para representar Jesus Cristo como o “Sol da Salvação” ou a “Luz do Mundo”. Essa ressignificação não apenas alinhou a nova fé com os ciclos naturais, mas também conferiu um sentido de esperança e renovação que ressoava com as tradições pagãs.

Incorporação de Costumes: Vários costumes festivos e elementos simbólicos das celebrações pagãs, como a troca de presentes e a decoração de árvores, foram integrados à prática cristã do Natal. Esses costumes, comuns em festivais de inverno nórdicos como o Yule, ajudaram a suavizar a transição para a nova religião, permitindo que as pessoas mantivessem práticas familiares enquanto adotavam a fé cristã.

A influência de Constantino II, imperador romano que “se converteu ao cristianismo” – por conveniência em se manter no poder , – foi fundamental nesse processo. Durante o Concílio de Niceia, em 325 d.C., ele buscou unificar a doutrina cristã e estabelecer uma base sólida para a religião em um império em transformação. Essa busca pela unidade também se refletiu na decisão de adaptar e ressignificar festividades pagãs, consolidando o cristianismo como uma força dominante na sociedade.

Assim, o cristianismo conseguiu converter um período de festividades pagãs em sua principal celebração anual, estabelecendo um novo paradigma religioso que, embora eficaz, levanta questões sobre a autenticidade da fé e a verdadeira natureza da espiritualidade. A apropriação de datas e práticas pagãs revela uma estratégia de expansão que, ao mesmo tempo em que promoveu a fé cristã, também diluiu as tradições autênticas das culturas que foram subjugadas. Essa história nos convida a refletir sobre como as religiões se moldam e se adaptam em busca de aceitação e poder, muitas vezes à custa de suas raízes originais..

Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta Novo

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