A história esquecida da relação de Curitiba com o partido nazista alemão na década de 1930

Foto: Reprodução

Durante a década de 1930, o Brasil tinha fora da Alemanha o segundo maior Partido Nazista do mundo, sua sede era em Curitiba.

Com a entrada do Brasil – na Segunda Grande Guerra Mundial – ao lado dos Aliados, o partido foi proibido.
O que se observa, ao refletirmos acerca da formação histórica e social do povo curitibano, é uma narrativa complexa, marcada por nuances que revelam tanto
aspectos de resistência quanto de resistência ao entendimento mais profundo de sua própria identidade.

No entanto, é inegável que, sob a perspectiva que ora
se apresenta, há uma percepção de que o curitibano, em sua maioria, apresenta uma postura de reserva, por vezes considerada fechada e até mesmo hostil perante os visitantes ou estranhos.

Este comportamento, muitas vezes interpretado de forma superficial, parece enraizado em uma história de origens que remonta ao final do século XIX e início do século XX, quando os primeiros colonizadores europeus chegaram à região, trazendo consigo uma mentalidade de trabalho árduo e de preservação de seus valores tradicionais.

Naqueles tempos, esses imigrantes, provenientes de países como Alemanha, Itália, Japão, Polônia e Ucrânia, chegaram ao Brasil com poucos recursos materiais, sem
posses, mas com uma determinação férrea de construir um novo lar, de estabelecer raízes e de garantir o futuro de suas famílias. Viviam de uma subsistência austera, partilhando na mesa um bife, uma batata e um ovo, símbolos de uma vida de esforço constante.
Essa rotina de trabalho intenso, aliada à escassez de recursos culturais e intelectuais, fez com que esses
indivíduos, ao longo do tempo, focassem na acumulação de bens materiais, na expansão de suas propriedades e na ascensão social através do empreendedorismo.
É importante notar que, na época, poucos se dedicavam à leitura ou à formação intelectual, pois o acesso a livros e conhecimentos era limitado.

Assim, a prioridade era a sobrevivência e o crescimento econômico, o que, por sua vez, contribuiu para uma mentalidade de austeridade e de resistência às mudanças culturais externas.
Seus descendentes, ao alcançarem prosperidade, adquiriram veículos, construíram negócios e consolidaram uma identidade marcada pela força do trabalho e pela preservação de seus valores tradicionais. Essa postura de conservar o próprio espaço, de não dividir ruas ou bens com os vizinhos, muitas vezes é mal
interpretada como fechada ou até mesmo hostil.

No âmbito cultural e político, essa história de imigrantes também se refletiu na formação de associações e clubes que, apesar de suas finalidades sociais ou recreativas,
tiveram papel importante na propagação de ideologias extremadas.
Exemplificando, o Clube Concórdia Alemão, que chegou a contar com mais de 20.000 sócios, muitos dos quais também eram simpatizantes do Partido Nacional
Socialista de Adolf Hitler, cujo regime liderou a Alemanha de 1933 a 1945, um período de atrocidades e de opressão sem igual. Documentos e jornais da época exaltavam o Terceiro Reich, símbolo de uma ideologia de supremacia racial e de autoritarismo.


De maneira semelhante, a Sociedade Garibaldo, de origem italiana, que somava mais de 30.000 associados, tinha entre seus membros admiradores fervorosos de
Mussolini, o líder fascista que governou a Itália de 1922 a 1943. Muitos desses imigrantes tornaram-se proprietários de restaurantes, fábricas de macarrão, de
refrigerantes e de conservas na região de Santa Felicidade, consolidando uma economia local que, por vezes, se entrelaçava com ideologias extremadas. Essas
influências, embora tenham se diluído ao longo do tempo, deixaram marcas na mentalidade coletiva de uma parcela da população.
A comunidade japonesa, por sua vez, dedicou-se à agricultura de subsistência, cultivando hortaliças, frutas e criando galinhas, vivendo de suas produções e mantendo uma ligação forte com suas raízes culturais. Ainda assim, também foram influenciados pelas ideologias extremadas de regimes como o nazismo e o
fascismo, o que contribuiu para a formação de uma identidade marcada por uma certa resistência ao diálogo intercultural e por uma postura de isolamento
social.

As comunidades polonesa e ucraniana, que compunham grande parte da população local, também
tiveram suas consciências moldadas por essas influências. Por muitas vezes absorvendo e internalizando discursos políticos e ideológicos que,
posteriormente, se traduziram em posições de apoio ao então denominado bolsonarismo.
Bolsonaro o pai, que é o líder do movimento copiou o “Deutschland Über Alles” (“Alemanha Acima de Tudo” primeiro verso da Deutschlandlied Canção dos Alemães) usando como “Brasil acima de tudo” e conquistou e conquistou a maioria dos votos no Paraná.
É importante ressaltar que toda essa narrativa não pretende generalizar ou rotular de forma pejorativa o povo curitibano, mas sim compreender as raízes históricas, culturais e sociais que podem explicar certos
comportamentos ou atitudes.

Por outro lado, é imprescindível reconhecer que há uma ausência de representação significativa de povos indígenas, negros e portugueses na história da formação dessa comunidade.
A maioria dos portugueses, por exemplo, que chegaram
posteriormente, tenderam a integrar-se como funcionários públicos ou profissionais liberais, muitas vezes distanciando-se de suas raízes brasileiras
profundas. Assim, o que se observa é uma formação social marcada por um forte peso da imigração europeia, que, ao longo do tempo, consolidou uma identidade mais voltada para o trabalho árduo e para a preservação de valores tradicionais, muitas vezes resistentes às mudanças culturais e sociais mais
amplas.

Em suma, o povo curitibano, com suas particularidades e contradições, reflete uma história de resistência, de esforço e de preservação de uma identidade que, por vezes, se manifesta de forma fechada ou até hostil. Compreender essa trajetória é fundamental para que possamos dialogar com suas origens e, quem sabe, promover uma abertura maior ao intercâmbio cultural, ao entendimento mútuo e à construção de uma sociedade mais plural e acolhedora.

Por Guilhobel A. Camargo – Gazeta de Novo

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